vídio do detalhes da viagem, o próximo o inicio então.
Para ver toda a série de vídeos no total de 6, veja nesse blog na pagina VÍDEOS.
é uma maneira de conhecer o mundo, mundo esse destruido pela ganância, é uma pena, mais o que fazer somos pequenos, o importante neste momento é viver, viver com a natureza, prezervar que ainda resta, é nossa obrigação. -- Erico Neves
A ansiedade e o buraco negro: Quando vem o desejo e a decisão de velejar de Florianópolis até o Rio de Janeiro, um buraco negro aparece na minha frente por causa das grandes dificuldades que tenho que transpor até levantar a ancora e colocar o barco a navegar. Os problemas que tenho que resolver na manutenção do barco e quebrar os laços que me prendem em terra faz surgir uma grande ansiedade que acaba por afetar o meu ser.
Também ficou guardado na memória as dificuldades que encontrei em viagens anteriores, que acabam por frear um pouco o entusiasmo transformando em dúvida o sucesso do empreendimento.
A primeira dificuldade é encontrar companheiro que se enquadre no projeto de navegar. Convida um, convida outro, até que aparece o companheiro para aliviar o primeiro passo. Não que eu não tenha condições de levar o barco sozinho, mas no primeiro instante sempre se leva em consideração um tripulante para dividir os quartos de navegação. A navegação solitária é muito emocionante, mas por principio, sempre convido amigos para fazer parte do projeto.
Com o passar do tempo, as coisas vão se arranjando, o buraco negro vai se dissipando e a ansiedade a meio termo.
Na expectativa de mudar a rotina, começam a surgir muitas idéias e ponderações, e o desejo de escrever.
Uma delas foi referente à ansiedade e as dúvidas que surgem, mesmo tendo feito várias viagens.
Fiquei a pensar de como fica a cabeça de um adolescente, sem experiência de vida e navegação, como é o caso de dois “velejadores” que estão tentando bater o recorde do mais novo de idade a dar a volta ao mundo em solitário. Sem dúvida “forçados” pelos irresponsáveis de seus pais pela possibilidade de sucesso e faturar alguns dólares com isso.
_______________________________________________________________
Diário- Partida 8 de outubro 2010
Levantei ancora finalmente, levando em conta de uma janela de quatro dias de vento sul, que começou a bater na sexta feira.
Era para zarpar nos dias 14 ou 15, mas finalmente aqueles dias de quando tinha somente 30 dias para viajar acabaram. Hoje, posso escolher o dia mais favorável para uma navegada tranqüila. Anos atrás, tinha que zarpar com o tempo que estava tendo, chuva, vento forte, fraco, contra, era difícil.
Veio comigo o Andre, dono do veleiro “Yaba Yaba Doo”. Pegamos um vento forte de sul, que nos levou rápido até Porto Belo, na enseada do Cachadaço. O mar levantou bastante, formando umas ondas de bom tamanho. 
Consegui levantar o bote, colocando a bordo do veleiro, levantado por um pau de carga. Assim consigo navegar sem ter que ficar rebocando e o perigo dele emborcar em uma onda. O bote ficando encostado no bordo, o convés ficou livre.
Em todas as viagens anteriores de veleiro, logo que zarpava, o mundo dava uma travada, mudando completamente a rotina.
Acostumado de estar a mil, com os afazeres de terra e o trabalho no banco, o mundo girava com muita rapidez, causando um impacto quando entrava no veleiro e encontrava um mundo de silencio e o navegar como uma tartaruga.
Até encontrar o equilíbrio e acostumar com a rotina de bordo, levava no mínimo três dias, muitas vezes me perguntando o que eu estava fazendo ali. Depois tudo se encaixava, levando o comandante ao paraíso.
Nos dias de hoje, fico de segunda a sexta, das dez da manha até as cinco da tarde no meu veleiro fazendo obras e às vezes dormindo. Mais que acostumado com o reduzido tamanho e o balançar constante do barco, sai com a maior tranqüilidade.
Chegamos às quatro e meia da tarde no Cachadaço, encontrando várias lanchas e veleiros.
“Com a previsão de quatro dias de vento sul, resolvi levantar ancoras para aproveitar uma navegaçao mais direta e a favor. Pegamos um vento forte de sul que nos levou rapido ate Porto Belo. O vento agora de noite continua forte. Amanha estaremos indo direto para Sao Francisco do Sul. “
______________________________________________________________
Diário 12-10-2009
Para fazer a perna até São Francisco do Sul e chegar antes do anoitecer é necessário sair assim que amanhece.
Esperando pelos primeiros raios solares, fico na minha cama de proa, já meio acordado e prevendo o frio que vamos pegar por causa do vento sul forte do dia sete.
De repente, olho para a sala do barco e vejo um clarão vindo em minha direção. Espantado e sem entender o que estava acontecendo, olho para a minha clarabóia da gaiúta de proa e noto que um pedaço de plástico que uso para apoiar a ancora estava obstruindo completamente a luz.
Acordo o André, informando que zarparíamos imediatamente sem tomar café, e que assim que colocássemos o barco em andamento iríamos providenciar o desjejum, haja vista estarmos uma hora atrasados.
A navegada foi muito boa, com vento sul de boa intensidade e muito frio.
Instalei o leme de vento, que funcionou perfeitamente com aquela força de vento.
Um dia antes de zarpar, tive que fazer uma nova veleta para o leme de vento. Percebi que o tamanho da veleta ficou pequena, e que iria experimentar assim mesmo no inicio da viagem.
Chegamos na praia da Enseada por volta das sete horas da noite, com o vento sul batendo ainda forte e com grandes rolões vindo de alto mar, prevendo que a noite seria como dormir em uma rede sendo balançada com força.
Dormir na praia da Enseada somente em ultimo recurso, mas como chegamos tarde, e o André teria que desembarcar para pegar um ônibus para Florianópolis, fomos obrigados a ficar ali mesmo.
No dia nove, colocamos o relógio para despertar seis horas da manhã. O André pegaria o ônibus às sete. Cinco e meia da manhã já estava acordado, fazendo o café e agilizando outras tarefas, como colocar o bote na água.
Ancorei um pouco longe da praia, e como teria que remar um bocado, armei a vela na canoa. Prevendo um desembarque dificultoso, coloquei as mochilas do André em um saco a prova de água.
Não deu outra, assim que batemos com a proa na praia, veio uma onda pela popa, me ensopando todo e um balde cheio de água salgada para dentro da canoa.
Por sorte o André não se molhou, conseguindo pegar o ônibus.
Dali, sai solo, para uma navegada que a muito não fazia. O dia estava maravilhoso, com vento meio de terral fraco. Sai com as velas em cima, mas motorando. Depois de timonear por duas horas e com pouco vento de sul, resolvo colocar o piloto automático.
Ficando livre do timão, começo a fazer uma faxina no barco, e muitas vezes deitando no beliche, deixando o barco seguir sozinho o seu destino.
Perto da barra de Paranaguá, desligo o piloto e sigo em direção da Ilha do Mel. Vendo que a barra estava um pouco ondulada, com várias ondas quebrando, resolvo assim mesmo seguir o caminho que sempre faço, evitando de ir até o inicio das marcações por bóias do canal dos navios.
Chegando no início do baixio que fica na entrada, começo a pegar algumas ondas pelo través indo assim mesmo até a boca do canal.
Entro no canal por volta das quatro da tarde, seguindo direto para a ilha da Cotinga. Assim que passo a Ilha do Mel, o Newton me telefona, informando que estava a bordo do Frankenstein me esperando.
No meio do caminho, passando a ponta do Poço, erro o trajeto, pegando um baixio, encalhando. Por sorte a maré estava enchendo, e uma hora depois consigo colocar o barco em andamento.
Acabo chegando à ilha da Cotinga por volta das sete horas da noite, com o Newton já preocupado pela minha demora.
Jantamos a bordo do Frankensten, o bacalhau que sobrou da janta que o Andre fez na praia da Enseada.
12.10.10
Ficou combinado que na próxima segunda-feira zarparemos para o Rio. Enquanto isso, encalharei o ZEE na rampa do Iate Clube Paranaguá para pintura de fundo, e outras obras mais.
______________________________________________________________
DIÁRIO 13.10.10
Tirei o dia para fazer compras no centro de Paranaguá.
Parei minha canoa em frente da praça ao lado do rio, onde tem uma praia que acabou sendo um tipo de estacionamento de canoas, botes e lanchas.
Viajei até Belém de moto pelo litoral do Brasil, e nunca vi tanta canoa de um pau só e tão bem cuidadas como às de Paranaguá e Guaraqueçaba.
Quando estive a dois anos atrás com o Zeejutter passeando pela Baía de Paranaguá, e parando em Guaraqueçaba, informaram-me , que na época em que o governo distribui cesta alimentação, chegava a ter mais de quinhentas canoas lado a lado na frente da cidade.
Quem olha pela primeira vez, parece que estão fazendo um tipo de competição pela canoa mais bonita.
Acabei passando em frente da Igreja Matriz, que de fora não diz muita coisa, mas resolvi entrar, encontrando no seu interior lindos vitrais.
Infelizmente, tem muita gente pobre pelas ruas, alcoólatras e viciados dormindo pelas calçadas.
Voltei para a sub sede na Cotinga para verificar a possibilidade de encalhar na rampa. Quando deu o horário limite da maré alta, não subindo o suficiente para o trabalho, desisti, voltando para o centro para pegar o Marcelo, que viria de Florianópolis.
Novamente faço o percurso Paranaguá/Cotinga, levando o Marcelo apenas para passear, já que às seis da noite ele iria dar aula na Escola Técnica.
A esta alturas, todos já me conhecem, haja vista ter uma canoa usando um motor esquisito, Brithis Seagul Inglês de 4 hp levando uma vela armada de optimist de cor vermelha.
Perto das cinco e quinze levo o Marcelo até o centro, de canoa é claro, no início navegando à vela e depois a motor e vela para chegar a tempo de dar as suas aulas de elétrica
Na noite passada acordei todo encarangado de frio. Fiquei com preguiça de pegar outro cobertor e fui me enrolando todo até que amanheceu. Achei aquilo estranho, pois no interior do barco é muito agradável, mesmo com o tempo de temperatura baixa.
Esta noite foi o contrario, acabei passado calor com a mesma coberta.
Analisando a situação, descobri que na noite passada dormi com a porta do barco aberta e nesta noite com ela fechada.
A verdade é que em Florianópolis, o barco na maioria das vezes fica afilado ao vento, não tendo problemas com o encanamento do ar. Aqui em Paranaguá, na Ilha da Cotinga, o barco fica mais direcionado pela correnteza das águas, ficando a popa direcionada para o vento, que com toda graça me congelou.
Fiz uma lista de 16 itens de prioridades a serem feitas, e com a ajuda do Marcelo acredito que vou adiantar meus serviços de bordo.
Como disse uma vez o Amir KlynK, saia, saia mesmo que seja para ir até a próxima esquina. No caso dele, a Ponta da Joatinga, e no meu, Porto Belo. Passando de Porto Belo, já começa a ser lucro.
Eu vou um pouco mais além. Mesmo que falte alguma coisa para arrumar, saia assim mesmo. Caso contrário, sempre haverá alguma coisa para fazer, e nunca se sai.
Certa vez, anos atrás, fui até o Rio de Janeiro com o veleiro “ARGUS”. Um mês antes da partida choveu muito, e meu trabalho ficou muito atrasado. Sai assim mesmo, aparafusando guarda-mancebos, colando ali, apertando acolá.
Harley Davidson
Hoje tenho uma Harley Davidson 1959. Quando a comprei, meus amigos brincavam comigo falando que ela não passaria de Tijucas, que aquilo era uma fábrica de pregos. Tudo bem, mesmo assim fui em frente. Passei por Tijucas, passei por Joinville, Curitiba, Santos, Rio de janeiro, Vitória, Porto Seguro. Voltei para Vitória, fui até Tiradentes, voltando para Florianópolis. Com ela já rodei mais de cinqüenta mil kilometros.
Com esse meu barco dos anos 60, já fui três vezes para o Rio de Janeiro. Quem sabe no futuro irei mais longe.
Aqui em Paranaguá, navegar pelos canais tem que ter um cuidado redobrado, tendo em vista o grande numero de embarcações em alta velocidade.
Particularmente navegar de noite é um perigo. Dois anos atrás, com meu companheiro Marcos, ancorados na Ilha da Cotinga, fomos para o centro de Paranaguá assim que anoiteceu. Um amigão, o Brodher (Emerson), capitão de uma escuna de passeio que fica ancorado em um trapiche bem em frente da praça, nos convidou para um churrasco a bordo.
Tudo bem, fomos no bote de apoio com o meu motorzinho berrando no meu ouvido.
O Marcos ficou de ficar de olho nas embarcações com uma lanterna na mão. Ficamos em acordo de navegar pelos baixios para evitar as lanchas.
Já em cima de um baixio, de repente, mais que de repente, a poucos metros de nós, passa uma lancha dos práticos a milhão pelo nosso lado.
Não preciso falar do susto, perguntando para o Marcos se ele não a tinha visto chegando e o que ele fazia com a lanterna apagada.
Isso também me faz lembrar um episódio mais punk que esse. Estávamos Junior e eu no “Gostodgua”, um veleiro de quarenta pés, a navegar para Salvador, quando, já de madrugada, e eu no meu quarto de descanso acordo com o Junior a me chamar.
Ele me conta que tem uma luzinha na frente, que insiste em vir em nossa direção, parecendo ser um barco de pesca.

_________________________________________________________
Diário 16-10-2010
A nau dos insensatos: Na frente da cidade de Paranaguá, ao lado do rio, tem um monumento representando uma Escuna de três mastros.
Logo que inauguraram estava montado com velas, que com o tempo foi se deteriorando.
O que não entendo é a administração ou exploração por parte da prefeitura ou do governo, em não aplicar nas cidades portuárias a riqueza que passa por ela. E essa riqueza não é pouca.
É normal encontrar ancorados na barra fora de Paranaguá em média doze navios esperando para entrar no porto.
É muita sacanagem deixar esta cidade no estado em que se encontra. Muito lixo nas ruas e praias, calçadas mal cuidadas, casarões antigos para preservar, e muitas outras coisas, que deveriam ser melhoradas para o bem do povo.
__________________________________________________________
Diário 18.10.2010
Diário 19.10.2010
O meu pé de laranja lima....ou melhor....minha canoa de vela vermelha: Tenho navegado direto com a canoa a motor e vela armada, mesmo sem ter vento e vou contar porque.
Certa vez, chegando em Paraty com o ZEE e acompanhado da Rossana, já ansiosos por tomar um café expresso com bolos, ancoro em frente do trapiche da cidade.
Tomamos um belo banho, a Rossana colocando sua bermuda novinha em folha, toda bem vestida e perfumada para novamente passear pela charmosa Paraty.
Era por volta das quatro da tarde, preparo o dingue, limpo todinho para não sujar a bermuda branca da Rossana e coloco o motor.
Ligo o meu querido British Seagull, coloco meu computador dentro de um saco estanque e fomos direto para o trapiche.
Chegando perto do trapiche, com o motor a falhar, fico tentando não deixá-lo morrer.
De repente, escuto gritos, berros, e quando olho para o lado, vejo uma traineira vindo a toda velocidade de encontro do meu dingue.
Não deu outra, vejo a Rossana a pular com sua bermuda novinha e sua bolsa nas mãos pela proa, e eu com o impacto, sou jogado para baixo da traineira.
Em milésimos de segundos, lembro-me do caso do Lars Grael, e sinto chocar-me com o fundo do barco. Empurro com todas as forças com meu pé e me destancio do casco e do hélice a funcionar com todas as rotações, louca para dilacerar minha perna ou outra parte do meu corpo.
Quando subo à tona, vejo meu dingue sem o motor, a Rossana toda molhada a se debater na água misturada com merda que vinha do bairro do aeroporto, que por azar a maré estava de vazante, e meu computador a boiar.
Vejo a dita traineira indo embora, sem prestar socorro. Berro com todos os meus pulmões todos os impropérios que sabia até ficar rouco.
Todos que estavam no trapiche, já que muitas escunas já tinham voltado de seus passeios, estavam atracadas, viram o ocorrido, tamanha gritaria, deram as costas achando que aquilo não era com eles, ou para não se envolver como testenha, tendo em vista que a traineira de passeio era um deles.
Uma lancha veio ao nosso socorro, pegando nossos pertences e a Rossana.
Eu fiquei que nem um louco a mergulhar em um mar coalhado de coliformes fecais a procurar meu querido motor.
De repente, não mais que de repente, vejo a traineira voltando bem devagar, chegando perto de mim e o “piloto” a pedir mil desculpas. Na verdade ele voltou porque estava fazendo um passeio tardio com turistas, e eles indignados obrigaram o infeliz a voltar.
Falei que meu motor foi ao fundo e que ele precisava me ajudar a encontra-lo. Levou os turistas para o trapiche, voltando em seguida.
Ficamos nós dois a mergulhar sem encontrar, até que decidi voltar ao ZEE para pegar meu narguille com ar comprimido.
Na volta, o dito aprendiz de assassino encontra meu motor, cheio de lama. Fomos ver o prejuízo, um celular perdido, meu motor todo molhado com água, lama e merda, passagem de avião da Rossana todo molhado, quase rasgando e eu com o pé um pouco machucado. Ficamos de nos encontrar de noite para acertos.
A lancha nos leva de volta para o ZEE. Tomamos novamente um banho mais demorado para tirar a “éca” da pele. Vestimos roupas limpinhas, mais perfumados que nunca e voltamos a remo para nosso tão esperado café.
De noite encontramos o irresponsável acompanhado de um primo com medo de levar uma sova. Acabou ele pagando sómente o celular e ficou por isso.
Essa é a Rossana, minha amada companheira que não desiste nunca. Passando por mil situações, aventuras, alegres ou tristes, mas sempre do meu lado.
Como certa vez em que ancorados no Canal de Bertioga onde fomos assaltados com revolver na cabeça. Mas isso é para ser contado outra hora. Abraços.
______________________________________________________
Diário 21-10-2010
ABRAÇOS, novas publicações seram sempre na seguencia da data.